no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha um pedro
no meio do caminho tinha uma pedra.
nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha um pedro no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
domingo, 28 de outubro de 2012
sensibiliza
cabelo desarrumado, sapato que não combina, etiqueta aparecendo. presente com preço, comida em boca aberta, calcinha em perna aberta. gordura de gordinha, pêlo em canela, espinha numa testa. unha descascada, anel virado, sapato desamarrado. não?
e crianças mal-educadas, famílias mudas, viúvas negras? o desvio dos olhos, a vergonha alheia, as caras-de-pau? hipócritas esclarecidos, imunes vitalícios, mimados protegidos? transportadores de boatos, inventores de histórias, mentirosos com talento. nada?
crianças com fome. adultos com fome. a fome. crianças doentes. velhos doentes. a doença. a solidariedade falha, o não ligo, a cegueira programada. os preconceitos herdados, as ofensas gratuitas, os enganos combinados. nada ainda?
cachorros atropelados, gatos abandonados, ratos foragidos. peixes com frio, macacos aprisionados, elefantes entediados. porcos ensanguentados? galinhas estupradas? patos mal-alimentados? agora sim.
priorize. o que te sensibiliza?
e crianças mal-educadas, famílias mudas, viúvas negras? o desvio dos olhos, a vergonha alheia, as caras-de-pau? hipócritas esclarecidos, imunes vitalícios, mimados protegidos? transportadores de boatos, inventores de histórias, mentirosos com talento. nada?
crianças com fome. adultos com fome. a fome. crianças doentes. velhos doentes. a doença. a solidariedade falha, o não ligo, a cegueira programada. os preconceitos herdados, as ofensas gratuitas, os enganos combinados. nada ainda?
cachorros atropelados, gatos abandonados, ratos foragidos. peixes com frio, macacos aprisionados, elefantes entediados. porcos ensanguentados? galinhas estupradas? patos mal-alimentados? agora sim.
priorize. o que te sensibiliza?
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
de verdade
gosto de gente de verdade.
feita de carne e sangue vermelho, claro ou escuro. que erra e pede desculpa, que faz e se arrepende, que abraça e beija e amassa, de verdade. saudável falta de prudência que faz a gente viver forte, que afasta a razão e libera o instinto do corpo, da dança, do grito, sem dó. julgando o julgamento como pouco importante, se esquecendo de que as pessoas lembram, ignorando que amanhã é um novo dia.
existem aos montes. tolidos, comportados, prudentes, felizes - se dizem. não sei. nasci sabendo que ser educada é um saco. segurar os talheres, alterar os pronomes, cruzar as pernas, sorrir. como quem se importa. com t o d a s essas coisas frias.
minha infanto-juvenil licença poética já pouco aceita entre a maioria acaba em pouco tempo. até uns anos atrás sempre tinha alguém a minha volta pra concertar qualquer observação sem-vergonha, über sincera, de verdade.
uma pena. vai expirar e só lamento. no mundo, de verdade, sou menos uma.
feita de carne e sangue vermelho, claro ou escuro. que erra e pede desculpa, que faz e se arrepende, que abraça e beija e amassa, de verdade. saudável falta de prudência que faz a gente viver forte, que afasta a razão e libera o instinto do corpo, da dança, do grito, sem dó. julgando o julgamento como pouco importante, se esquecendo de que as pessoas lembram, ignorando que amanhã é um novo dia.
existem aos montes. tolidos, comportados, prudentes, felizes - se dizem. não sei. nasci sabendo que ser educada é um saco. segurar os talheres, alterar os pronomes, cruzar as pernas, sorrir. como quem se importa. com t o d a s essas coisas frias.
minha infanto-juvenil licença poética já pouco aceita entre a maioria acaba em pouco tempo. até uns anos atrás sempre tinha alguém a minha volta pra concertar qualquer observação sem-vergonha, über sincera, de verdade.
uma pena. vai expirar e só lamento. no mundo, de verdade, sou menos uma.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
algarismos significativos
A vazia exatidão dos números me faz procurar em décimos, em centésimos, um meio termo. Um infinito de elementos que sozinhos contam pessoas, balas, amigos, namorados, janelas, quando ao lado de uma vírgula, revelam nada mais do que o instrumento utilizado ou a qualidade do cronômetro. Ele sim, pra muito serve.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
toque pouco
percebi hoje que, no meu mundo, o sapato das moças já faz toc toc. que um sorriso já pode significar indiferença. que as frases que vem das crianças já devem ser consideradas valiosas e que um abraço apertado é um momento de toque. raro. entre eu e tu, dois pontos distintos, infinitas retas curvas estabelecem o que chamamos de amizade, o contato. a viagem eletromagnética do olhar hoje já não tem a mesma importância do toque digital que, na velocidade da luz, digita o texto que eu posso ler ou não, que pode mudar ou não, que não ou não.
meus olhos cansam. de olhar e transitar por pixels e distâncias. por poucas íris e muitas teclas. por muito chão e pouca mão, unha, boca, pêlo. cor pouca. estímulo pouco. vida pouca. toque pouco.
meus olhos cansam. de olhar e transitar por pixels e distâncias. por poucas íris e muitas teclas. por muito chão e pouca mão, unha, boca, pêlo. cor pouca. estímulo pouco. vida pouca. toque pouco.
sábado, 21 de julho de 2012
o chefe
precisei esperar pra ser atendida. o café era de graça. adocei e sentei, pra esperar.
olhei pra frente pra procurar a tela que mostrava as senhas, pra pensar se pagava mais um café, pra procurar gente bonita. vi várias mesas com seus computadores e, atrás de cada um deles, uma mulher muito bem maquiada e de bom humor, trabalhando. eram umas 8 atendentes pra uma demanda alta de clientes a espera de atendimento. ágeis, atendiam sem perder o sorriso ou a postura. adequadas, treinadas. bem mandadas.
no meio delas, vi um terno verde com calça social no mesmo tom. sapato de couro preto e gel segurando o cabelo lambido, para a esquerda. um homem, só um.
o chefe.
olhei pra frente pra procurar a tela que mostrava as senhas, pra pensar se pagava mais um café, pra procurar gente bonita. vi várias mesas com seus computadores e, atrás de cada um deles, uma mulher muito bem maquiada e de bom humor, trabalhando. eram umas 8 atendentes pra uma demanda alta de clientes a espera de atendimento. ágeis, atendiam sem perder o sorriso ou a postura. adequadas, treinadas. bem mandadas.
no meio delas, vi um terno verde com calça social no mesmo tom. sapato de couro preto e gel segurando o cabelo lambido, para a esquerda. um homem, só um.
o chefe.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
entregue
a muito poucos me entreguei.
por medo, por conselho e por desconfiança, até hoje sempre começo com um pé atrás. afinal, um estranho ou quase sempre pode se transformar num novo amigo, num novo affair, num novo trauma, numa nova decepção.
tenho que parar com essas vírgulas.
a questão é que talvez eu demore demais pra quase tudo, sendo o tudo o que realmente interessa. a questão é que talvez eu tenha problemas não só em confiar, mas em demonstrar confiança às pessoas certas, que confiam em mim. a questão é que preciso aprender a me entregar - de verdade.
vou trocar de pingente. voltar a usar meu mergulhador. ele me faz lembrar disso toda vez que olho pro meu colo ou que, pra não encarar alguém, mordo minhas pratas.
outra questão que eu aprecio é a paciência.
gente que entende que eu vou devagar, que talvez eu não vá ao longe e que continua esquentando o chá, só no apoio moral, pra que eu chegue lá - pronta. sem o imediatismo do século vinte, com gosto de banho maria.
estou chegando.
já vou.
por medo, por conselho e por desconfiança, até hoje sempre começo com um pé atrás. afinal, um estranho ou quase sempre pode se transformar num novo amigo, num novo affair, num novo trauma, numa nova decepção.
tenho que parar com essas vírgulas.
a questão é que talvez eu demore demais pra quase tudo, sendo o tudo o que realmente interessa. a questão é que talvez eu tenha problemas não só em confiar, mas em demonstrar confiança às pessoas certas, que confiam em mim. a questão é que preciso aprender a me entregar - de verdade.
vou trocar de pingente. voltar a usar meu mergulhador. ele me faz lembrar disso toda vez que olho pro meu colo ou que, pra não encarar alguém, mordo minhas pratas.
outra questão que eu aprecio é a paciência.
gente que entende que eu vou devagar, que talvez eu não vá ao longe e que continua esquentando o chá, só no apoio moral, pra que eu chegue lá - pronta. sem o imediatismo do século vinte, com gosto de banho maria.
estou chegando.
já vou.
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